
“S/Z: Uma análise da novela ‘Sarrasine’ de Honoré de Balzac”, de Roland Barthes.
A intenção de seu trabalho, explica o autor, é explorar a pluralidade, total ou parcial, que existe em todo texto moderno. Sua avaliação é ligada à prática da escritura, a valorização daquilo que é digno de ser reescrito. Sua meta é tirar do leitor o papel que adquiriu que componente passivo do ato da produção do texto, reduzido a um simples consumidor, condição de nossa atual sociedade. Para Barthes, temos que ser também produtores, e aproveitarmos o texto literário ao máximo. Ou seja, a pluralidade parcial do texto (pois a total existe talvez somente na idéia) permite-nos infinitas leituras e interpretações, sem as restrições de nenhum sistema da linguagem ou do pensamento. De modo que não nos comportemos mais como consumidores, leitores que só dão “uma chance” para a manifestação do texto, possibilitamos a eterna atualidade de suas leituras; o estímulo a nele arriscar (e não deduzir) sentidos não antes descobertos. O autor de “S/Z” prioriza a avaliação conotativa dos códigos da novela explorada, apesar de balancear os valores da conotação. Esta é descrita como positiva (por valorizar o diferencial que há no texto) e ao mesmo tempo negativa (por delimitar o seu sentido). Todavia, é aceita por ser a melhor das alternativas – dá ao texto um certo plural, ao menos. Barthes não deixa de se submeter à denotação, para adaptar-se ao texto clássico (à parte da obra impossível de se reescrever).
Estrelar o texto e não compactá-lo: assim resume-se o método de sua análise. O crítico apenas nos indica alguns caminhos possíveis, sem querer se responsabilizar muito. A divisão em lexias é tida desde o começo como totalmente arbitrária, proporcional à quantidade de conotações encontradas em cada fragmento. As zonas de leitura são traçadas, colocando sempre em primeiro plano o caráter multifacetado da novela escolhida (ou como ele diz, o significante de apoio, que poderia ser qualquer outro). O enredo de “Sarrasine” tem a seguinte base:
Um homem (o narrador não é denominado), durante uma festa da alta burguesia numa mansão francesa do séc. XVIII, conta uma história a Mme. de Rochefide, por quem está apaixonado. Ele o faz porque não consegue resistir ao pedido dela (de ouvir a história) e também porque, neste caso, a narrativa seria uma moeda de troca, pela qual, supostamente, a moça concederia ao narrador uma noite de amor. A história que este conta é a de Sarrasine, um francês nascido mais ou menos 30 anos antes do tempo corrente, cujo pai era magistrado, trabalhador honesto que montou sua própria fortuna, querendo que o filho trilhasse o mesmo caminho. Porém o jovem mostrou-se irreverente desde o começo, com um quê de demoníaco e também de genial. Era um composto totalmente heterogêneo, uma personalidade agressiva, impulsiva e imprevisível, um compósito (segundo Barthes). Por isso não concretizou o desejo do pai, foi expulso da escola de jesuítas por mau comportamento (durante as aulas caricaturava os professores e nas missas talhava qualquer madeira que encontrasse, até a dos bancos da igreja, criando imagens brutas e rudes de santos - imagens “licenciosas”). Foi “amaldiçoado” pelo pai e procurou refúgio no desenvolvimento de seu talento artístico, instalando-se no ateliê de Bouchardon, e este seu mestre era mais que isso, era uma “mãe” (avalia o autor de S/Z) para Sarrasine, no sentido de cuidar dele, apaziguar seu mau temperamento e evitar ao máximo o seu contato com o mundo exterior, privando-o do aprendizado sociocultural, das regras que se aprende instintivamente - as malícias sociais -, e também da sexualidade em geral. O artista iniciante foi influenciado dessa maneira a um ponto que chegava a se sentir mal em eventos públicos, como bailes, para cujas conversações (do grand monde) Bouchardon o “arrastava”.
Completamente atarefado, vivendo com plenitude o que é ser artista - trabalhando de dia a sua obra e de noite pedindo dinheiro nas ruas -, Sarrasine obteve maturidade artística e resolveu “emancipar-se” de Bouchardon, posto que ao longo dos seis anos de trabalho sob sua tutela ele adquiriu conhecimento e fama, e também por intervenção de seu mestre pôde reconciliar-se com seu pai, o qual o apoiou sua viagem para o desenvolvimento de sua carreira. Assim, o jovem foi para a Itália, onde pôde observar as abundantes obras artísticas de Roma, examinando-as e as estudando profundamente, e continuou seu trabalho em um ateliê. Certa noite chamou-lhe a atenção um teatro lotado, movimentado, e foi verificar o que estava acontecendo. Descobriu que se apresentariam dois cantores muito famosos, Zambinella e Jomelli. Entrou para ver o espetáculo e, ao deparar-se com Zambinella, ficou extasiado, pois viu nela fragmentos perfeitos reunidos em um só corpo, idealmente perfeito (analisado sob o seu conhecimento de escultor) e o encanto dela em si, mais a romanticidade da música italiana, levaram-no ao delírio, e todos os aspectos da situação influenciaram-no de tal forma que teve aí a sua primeira experiência sexual. Obstinou-se a ser amado por ela ou morrer. Em seu ateliê, desenhou-a de várias formas, tentando desvendá-la até seu íntimo, comunicar-se com a imagem ilusória que criara. Passou a ir vê-la cantar todas as noites, a ponto de os cantores perceberem sua paixão (e rirem-se dele). Por causa de um mal-interpretado olhar de Zambinella, Sarrasine crê ser correspondido. Uma aia secretamente combina com ele um encontro, e ao ir à sua casa arrumar-se (pela primeira vez se preocupa com a própria aparência), é avisado que caso se envolva com a artista será assassinado pelo protetor da mesma, o cardeal Cicognara.
Sarrasine despreza a ameaça e vai ao encontro, e guiado pela empregada chega a um local onde se realiza uma orgia. É recebido pelo grupo de cantores do qual Zambinella fazia parte (sem o saber, é enganado por todos e pela própria amada – eles “permitem” sua paixão pela coquette desenvolver-se a motivo de riso). Ao conversar com aquele que a corteja, a cantora reconhece seu caráter agressivo e passa a temer sua própria morte ao momento em que o jovem descobrir que foi enganado. Por isso, esquiva-se dele e acaba aumentando, sem querer, o sentimento do mesmo (a sua recusa é para ele uma demonstração de moralidade e amor). Partindo juntos para uma pequena vila, depois da orgia, Zambinella expressa claramente a impossibilidade da relação entre os dois, fato comunicado já durante a festa, enquanto conversavam num boudoir para o qual o escultor havia arrastado a moça. A justificativa fisiológica de sua incapacidade de amar (“e se eu não for mulher?”), a qual também é ignorada por Sarrasine, é tomada pelo mesmo como uma brincadeira absurda; apenas uma tentativa a mais de esquiva. O conhecimento anatômico que o artista tinha, vindo de seus estudos sobre a escultura, convencia-o cegamente desta lógica: “Zambinella tem formas de mulher, portanto é mulher”, ou, “só a mulher é bela, portanto Zambinella é mulher”. De acordo com Barthes, há ainda uma terceira lógica, chamada por ele de narcísica: se Sarrasine a ama, e como só amamos o belo, então trata-se de uma mulher. O jovem imaturo só sabe fazer deduções mecânicas, baseadas em conceitos de sabedoria popular, unidas à sua ignorância já citada – e por isso é quase sempre levado ao erro.
Na volta do passeio, Zambinella, temerosa e sem sucesso em convencê-lo, fê-lo voltar sozinho. O moço, num acesso de loucura, planeja raptar a cantora. Ao sair de seu ateliê encontra um amigo francês, Vien, que lhe convida a um concerto à casa de um embaixador, no qual Zambinella estará cantando. O escultor na hora aceita, e pede a seu amigo e mais outros companheiros que o ajudem a raptar a cantora. Por causa dos preparativos do rapto, chega atrasado ao concerto. Notando sua amada vestida de homem, perguntou a um senhor (o príncipe Chigi) ao seu lado se ela estava vestida assim por consideração aos membros da igreja ali presentes. O senhor achou que se tratava de uma brincadeira, perguntando ao francês de onde vinha; pois era mais que reconhecido por todos que nos domínios do Papa só eunucos poderiam cantar; mulheres não eram permitidas a subir ao palco. Se aquele que acabara de perguntá-lo não sabia disso, devia ter chegado “ontem” à Itália. E o senhor continuou seu discurso, lamentando ter pagado tudo (aulas de canto, talvez a própria operação de castração) a este “tratante”, Zambinella, que o abandonara por um protetor mais rico. Mesmo após esta revelação mais do que explícita da verdadeira identidade da cantora, Sarrasine ainda prefere enganar-se e acreditar que era tudo uma calúnia; que o segredo de Zambinella ser mulher era protegido pelo cardeal. O amor cego e a má interpretação de todos os códigos (distorcidos pelo ponto-de-vista do apaixonado), unidos à ingenuidade e à ignorância da cultura local, levam o jovem ao seu próprio fim.
Ao perceber que o moço estava na platéia, a vedete estremece, e jeitosamente interrompe e finaliza sua apresentação, pois sente-se mortalmente ameaçada. Acreditando que seu possível assassino não estava mais presente no local, no fim da festa o eunuco sai e é abordado por seu raptor junto a seus companheiros. É levado até o ateliê, suas mãos são atadas e prendem-no a uma cadeira. Sarrasine exige-lhe a verdade, e o silêncio deste a confirma. Covarde, o eunuco pede ao moço que não o mate; pois concordara em enganá-lo apenas para agradar a seus companheiros cantores, que queriam rir. Furioso, indignado, Sarrasine culpa Zambinella, pois agora não poderá mais amar de novo; não poderá sentir prazer fútil ou artístico. Tenta destruir a estátua que fizera inspirado na silhueta de sua amada, que no momento simbolizava sua ilusão, mas errou o alvo – estava em delírio. Quando, num acesso de raiva já repetido há momentos, ameaçara novamente matar Zambinella, esta gritou, e vieram empregados do cardeal Cicognara para matá-lo a punhaladas, agradecidas pelo francês, com uma irônica religiosidade. Assim termina a narrativa, e aquele que a contava explica a Mme. de Rochefide que mais tarde o cardeal apossara-se da estátua, a qual teve sua versão de mármore em um museu (Albani), para onde a família Lanty fora e pedira a Vien (o amigo do falecido artista) que a copiasse. A cópia é um quadro que representa Adônis deitado sobre uma pele de leão. Este quadro estava exposto no boudoir para o qual o narrador e Mme. de Rochefide haviam se refugiado. O motivo de sua “fuga” do salão principal da festa (que estava ocorrendo na mansão da rica família Lanty, cuja origem de riqueza ninguém conseguia descobrir) foi a má situação pela qual a namorada do narrador acabara de passar: tocou um velho pois este parecia-lhe tão decrépito que ela queria conferir se ainda estava de fato vivo. Quando foi tocado, soltou um grito áspero, que além de apavorar a senhora chamou a atenção de todos os presentes e despertou a raiva dos familiares. Ao entrar no boudoir, depois do ocorrido, a moça avistou o quadro supracitado e ficou maravilhada com sua perfeita beleza. O narrador manifestou conhecer a origem desta gravura, e contar-lhe-ia em troca de algo (no caso, seu corpo). Assim, como já foi dito, narrou-lhe a história e desvendou os mistérios suspensos (o velho assustador era Zambinella, cujo dinheiro da carreira de vedete sustentava os parentes Lanty); porém a troca não foi efetuada, pois a madame sentiu-se amorosa e socialmente iludida e abalada pela história. Roland Barthes justifica isto ao conceituar que todos são contaminados pela castração. A moça condenou a humanidade e a insensível sociedade burguesa parisiense, que não se importa com a origem do dinheiro de seus membros, mesmo esta sendo desvirtuosa. A novela termina com esta cena, da moça em estado reflexivo.
O crítico autor do livro em questão, desde o começo, faz um trato com o leitor, afirmando não estruturar demais a sua análise, para reafirmar a multivalência do texto. De qualquer modo, não deixa de dar ao seu estudo um teor didático: divide os significados indicados reunidos por cinco códigos: hermenêutico, identificando os enigmas presentes desde sua criação até sua solução; semântico, que designa por um termo um tanto abrangente o significado conotativo da lexia a que remete; simbólico, extenso campo dentro do qual encontramos variações, substituições, antíteses etc; proairético, o que define o conhecimento da ação humana representada; e finalmente o cultural, que compõe referências a uma ciência, uma sabedoria popular ou uma arte de certa sociedade, entre outros. Equilibrando assim a metodologia com a modernidade de sua análise, Barthes alcança sua humilde meta, incluindo o leitor à profundidade do trabalho de produzir e interpretar literatura.
rascunho de 22/04/2009.
postado em 03/08/2009.
Estrelar o texto e não compactá-lo: assim resume-se o método de sua análise. O crítico apenas nos indica alguns caminhos possíveis, sem querer se responsabilizar muito. A divisão em lexias é tida desde o começo como totalmente arbitrária, proporcional à quantidade de conotações encontradas em cada fragmento. As zonas de leitura são traçadas, colocando sempre em primeiro plano o caráter multifacetado da novela escolhida (ou como ele diz, o significante de apoio, que poderia ser qualquer outro). O enredo de “Sarrasine” tem a seguinte base:
Um homem (o narrador não é denominado), durante uma festa da alta burguesia numa mansão francesa do séc. XVIII, conta uma história a Mme. de Rochefide, por quem está apaixonado. Ele o faz porque não consegue resistir ao pedido dela (de ouvir a história) e também porque, neste caso, a narrativa seria uma moeda de troca, pela qual, supostamente, a moça concederia ao narrador uma noite de amor. A história que este conta é a de Sarrasine, um francês nascido mais ou menos 30 anos antes do tempo corrente, cujo pai era magistrado, trabalhador honesto que montou sua própria fortuna, querendo que o filho trilhasse o mesmo caminho. Porém o jovem mostrou-se irreverente desde o começo, com um quê de demoníaco e também de genial. Era um composto totalmente heterogêneo, uma personalidade agressiva, impulsiva e imprevisível, um compósito (segundo Barthes). Por isso não concretizou o desejo do pai, foi expulso da escola de jesuítas por mau comportamento (durante as aulas caricaturava os professores e nas missas talhava qualquer madeira que encontrasse, até a dos bancos da igreja, criando imagens brutas e rudes de santos - imagens “licenciosas”). Foi “amaldiçoado” pelo pai e procurou refúgio no desenvolvimento de seu talento artístico, instalando-se no ateliê de Bouchardon, e este seu mestre era mais que isso, era uma “mãe” (avalia o autor de S/Z) para Sarrasine, no sentido de cuidar dele, apaziguar seu mau temperamento e evitar ao máximo o seu contato com o mundo exterior, privando-o do aprendizado sociocultural, das regras que se aprende instintivamente - as malícias sociais -, e também da sexualidade em geral. O artista iniciante foi influenciado dessa maneira a um ponto que chegava a se sentir mal em eventos públicos, como bailes, para cujas conversações (do grand monde) Bouchardon o “arrastava”.
Completamente atarefado, vivendo com plenitude o que é ser artista - trabalhando de dia a sua obra e de noite pedindo dinheiro nas ruas -, Sarrasine obteve maturidade artística e resolveu “emancipar-se” de Bouchardon, posto que ao longo dos seis anos de trabalho sob sua tutela ele adquiriu conhecimento e fama, e também por intervenção de seu mestre pôde reconciliar-se com seu pai, o qual o apoiou sua viagem para o desenvolvimento de sua carreira. Assim, o jovem foi para a Itália, onde pôde observar as abundantes obras artísticas de Roma, examinando-as e as estudando profundamente, e continuou seu trabalho em um ateliê. Certa noite chamou-lhe a atenção um teatro lotado, movimentado, e foi verificar o que estava acontecendo. Descobriu que se apresentariam dois cantores muito famosos, Zambinella e Jomelli. Entrou para ver o espetáculo e, ao deparar-se com Zambinella, ficou extasiado, pois viu nela fragmentos perfeitos reunidos em um só corpo, idealmente perfeito (analisado sob o seu conhecimento de escultor) e o encanto dela em si, mais a romanticidade da música italiana, levaram-no ao delírio, e todos os aspectos da situação influenciaram-no de tal forma que teve aí a sua primeira experiência sexual. Obstinou-se a ser amado por ela ou morrer. Em seu ateliê, desenhou-a de várias formas, tentando desvendá-la até seu íntimo, comunicar-se com a imagem ilusória que criara. Passou a ir vê-la cantar todas as noites, a ponto de os cantores perceberem sua paixão (e rirem-se dele). Por causa de um mal-interpretado olhar de Zambinella, Sarrasine crê ser correspondido. Uma aia secretamente combina com ele um encontro, e ao ir à sua casa arrumar-se (pela primeira vez se preocupa com a própria aparência), é avisado que caso se envolva com a artista será assassinado pelo protetor da mesma, o cardeal Cicognara.
Sarrasine despreza a ameaça e vai ao encontro, e guiado pela empregada chega a um local onde se realiza uma orgia. É recebido pelo grupo de cantores do qual Zambinella fazia parte (sem o saber, é enganado por todos e pela própria amada – eles “permitem” sua paixão pela coquette desenvolver-se a motivo de riso). Ao conversar com aquele que a corteja, a cantora reconhece seu caráter agressivo e passa a temer sua própria morte ao momento em que o jovem descobrir que foi enganado. Por isso, esquiva-se dele e acaba aumentando, sem querer, o sentimento do mesmo (a sua recusa é para ele uma demonstração de moralidade e amor). Partindo juntos para uma pequena vila, depois da orgia, Zambinella expressa claramente a impossibilidade da relação entre os dois, fato comunicado já durante a festa, enquanto conversavam num boudoir para o qual o escultor havia arrastado a moça. A justificativa fisiológica de sua incapacidade de amar (“e se eu não for mulher?”), a qual também é ignorada por Sarrasine, é tomada pelo mesmo como uma brincadeira absurda; apenas uma tentativa a mais de esquiva. O conhecimento anatômico que o artista tinha, vindo de seus estudos sobre a escultura, convencia-o cegamente desta lógica: “Zambinella tem formas de mulher, portanto é mulher”, ou, “só a mulher é bela, portanto Zambinella é mulher”. De acordo com Barthes, há ainda uma terceira lógica, chamada por ele de narcísica: se Sarrasine a ama, e como só amamos o belo, então trata-se de uma mulher. O jovem imaturo só sabe fazer deduções mecânicas, baseadas em conceitos de sabedoria popular, unidas à sua ignorância já citada – e por isso é quase sempre levado ao erro.
Na volta do passeio, Zambinella, temerosa e sem sucesso em convencê-lo, fê-lo voltar sozinho. O moço, num acesso de loucura, planeja raptar a cantora. Ao sair de seu ateliê encontra um amigo francês, Vien, que lhe convida a um concerto à casa de um embaixador, no qual Zambinella estará cantando. O escultor na hora aceita, e pede a seu amigo e mais outros companheiros que o ajudem a raptar a cantora. Por causa dos preparativos do rapto, chega atrasado ao concerto. Notando sua amada vestida de homem, perguntou a um senhor (o príncipe Chigi) ao seu lado se ela estava vestida assim por consideração aos membros da igreja ali presentes. O senhor achou que se tratava de uma brincadeira, perguntando ao francês de onde vinha; pois era mais que reconhecido por todos que nos domínios do Papa só eunucos poderiam cantar; mulheres não eram permitidas a subir ao palco. Se aquele que acabara de perguntá-lo não sabia disso, devia ter chegado “ontem” à Itália. E o senhor continuou seu discurso, lamentando ter pagado tudo (aulas de canto, talvez a própria operação de castração) a este “tratante”, Zambinella, que o abandonara por um protetor mais rico. Mesmo após esta revelação mais do que explícita da verdadeira identidade da cantora, Sarrasine ainda prefere enganar-se e acreditar que era tudo uma calúnia; que o segredo de Zambinella ser mulher era protegido pelo cardeal. O amor cego e a má interpretação de todos os códigos (distorcidos pelo ponto-de-vista do apaixonado), unidos à ingenuidade e à ignorância da cultura local, levam o jovem ao seu próprio fim.
Ao perceber que o moço estava na platéia, a vedete estremece, e jeitosamente interrompe e finaliza sua apresentação, pois sente-se mortalmente ameaçada. Acreditando que seu possível assassino não estava mais presente no local, no fim da festa o eunuco sai e é abordado por seu raptor junto a seus companheiros. É levado até o ateliê, suas mãos são atadas e prendem-no a uma cadeira. Sarrasine exige-lhe a verdade, e o silêncio deste a confirma. Covarde, o eunuco pede ao moço que não o mate; pois concordara em enganá-lo apenas para agradar a seus companheiros cantores, que queriam rir. Furioso, indignado, Sarrasine culpa Zambinella, pois agora não poderá mais amar de novo; não poderá sentir prazer fútil ou artístico. Tenta destruir a estátua que fizera inspirado na silhueta de sua amada, que no momento simbolizava sua ilusão, mas errou o alvo – estava em delírio. Quando, num acesso de raiva já repetido há momentos, ameaçara novamente matar Zambinella, esta gritou, e vieram empregados do cardeal Cicognara para matá-lo a punhaladas, agradecidas pelo francês, com uma irônica religiosidade. Assim termina a narrativa, e aquele que a contava explica a Mme. de Rochefide que mais tarde o cardeal apossara-se da estátua, a qual teve sua versão de mármore em um museu (Albani), para onde a família Lanty fora e pedira a Vien (o amigo do falecido artista) que a copiasse. A cópia é um quadro que representa Adônis deitado sobre uma pele de leão. Este quadro estava exposto no boudoir para o qual o narrador e Mme. de Rochefide haviam se refugiado. O motivo de sua “fuga” do salão principal da festa (que estava ocorrendo na mansão da rica família Lanty, cuja origem de riqueza ninguém conseguia descobrir) foi a má situação pela qual a namorada do narrador acabara de passar: tocou um velho pois este parecia-lhe tão decrépito que ela queria conferir se ainda estava de fato vivo. Quando foi tocado, soltou um grito áspero, que além de apavorar a senhora chamou a atenção de todos os presentes e despertou a raiva dos familiares. Ao entrar no boudoir, depois do ocorrido, a moça avistou o quadro supracitado e ficou maravilhada com sua perfeita beleza. O narrador manifestou conhecer a origem desta gravura, e contar-lhe-ia em troca de algo (no caso, seu corpo). Assim, como já foi dito, narrou-lhe a história e desvendou os mistérios suspensos (o velho assustador era Zambinella, cujo dinheiro da carreira de vedete sustentava os parentes Lanty); porém a troca não foi efetuada, pois a madame sentiu-se amorosa e socialmente iludida e abalada pela história. Roland Barthes justifica isto ao conceituar que todos são contaminados pela castração. A moça condenou a humanidade e a insensível sociedade burguesa parisiense, que não se importa com a origem do dinheiro de seus membros, mesmo esta sendo desvirtuosa. A novela termina com esta cena, da moça em estado reflexivo.
O crítico autor do livro em questão, desde o começo, faz um trato com o leitor, afirmando não estruturar demais a sua análise, para reafirmar a multivalência do texto. De qualquer modo, não deixa de dar ao seu estudo um teor didático: divide os significados indicados reunidos por cinco códigos: hermenêutico, identificando os enigmas presentes desde sua criação até sua solução; semântico, que designa por um termo um tanto abrangente o significado conotativo da lexia a que remete; simbólico, extenso campo dentro do qual encontramos variações, substituições, antíteses etc; proairético, o que define o conhecimento da ação humana representada; e finalmente o cultural, que compõe referências a uma ciência, uma sabedoria popular ou uma arte de certa sociedade, entre outros. Equilibrando assim a metodologia com a modernidade de sua análise, Barthes alcança sua humilde meta, incluindo o leitor à profundidade do trabalho de produzir e interpretar literatura.
rascunho de 22/04/2009.
postado em 03/08/2009.

